Há 75 anos, um copista da Rádio MEC, responsável por transcrever partituras aos músicos da emissora ligada ao governo, decidiu que havia chegado a hora de fundar o seu próprio grupo musical. Chamado Abigail Moura, o mineiro de 37 anos foi para o Rio de Janeiro com a intenção de viver daquilo que mais gostava: música.
Com noções de percussão e trombone, além do conhecimento de orquestração adquirido durante seu trabalho na rádio, Moura uniu o erudito dos grandes maestros que por ali passaram com seu repertório religioso e musical negro. Nascia assim naquele ano a Orquestra Afro-Brasileira, pioneira, desafiadora e cuja influência é sentida em músicos de hoje.
“Alguns eruditos, como Villa-Lobos, tentavam colocar a percussão da música negra em suas orquestras, mas ela ficava atrás, deslocada. O Abigail mudou isso. Era tudo junto”, lembra aoNexo o instrumentista Carlos Negreiros, único membro vivo da Orquestra Afro-Brasileira original. “Ele sempre dizia: ‘O tambor é soberano’. A música era centrada no tambor e os cantos nas religiões afro-brasileiras. Isso não existia antes.”
Para seu agrupamento, Abigail Moura chamou músicos profissionais e amadores que assumiram instrumentos raramente colocados lado a lado. As percussões incluíam versões tradicionais de instrumentos ligados à religião, como um trio de atabaques chamados pelo candomblé de nação Jeje de rum, rumpi e lê; um urucungo (similar a um berimbau), angona-puíta (uma espécie de cuíca mais grave), afoxé, ganzá, e os metálicos agogô, gonguê e adjá. Complementando a formação de concerto, entram instrumentos associados ao jazz americano, como saxofones, clarinetes, trombones e trompetes.
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